Separados do Rio Grande do Sul por milhares de quilômetros, gaúchos e descendentes que escolheram Roraima para viver mantêm uma parte dos pampas no extremo Norte do Brasil. Neste domingo (20), cavalos, pilchas e lenços pelas ruas de Boa Vista deram forma a essa memória durante a cavalgada que encerrou a 38ª Semana Farroupilha.
O cortejo saiu por volta das 8h da sede do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Nova Querência e percorreu avenidas da capital até chegar à Esplanada do Palácio Senador Hélio Campos.
Mais do que o encerramento de uma programação festiva, a cavalgada expõe uma característica da formação social de Roraima: a presença de migrantes de diferentes regiões brasileiras que trouxeram consigo costumes, referências e identidades culturais.
No caso dos gaúchos, essa história ganhou um endereço próprio em Boa Vista há 45 anos. O CTG Nova Querência foi fundado em 20 de setembro de 1981, justamente no Dia do Gaúcho. Registros históricos indicam que a entidade surgiu a partir da mobilização de migrantes e tradicionalistas que viviam em Roraima.
A primeira Semana Farroupilha promovida pela entidade ocorreu em 1987. Quase quatro décadas depois, a festa permanece no calendário cultural de Boa Vista.
Uma tradição que mudou ao chegar ao Norte
A trajetória do CTG também revela que preservar uma identidade longe do lugar de origem não significa simplesmente reproduzi-la.
Pesquisas acadêmicas sobre a presença gaúcha em Roraima mostram que o Nova Querência se transformou, ao longo dos anos, em um espaço frequentado também por pessoas sem origem sul-rio-grandense. Um estudo sobre a Semana Farroupilha identificou a entidade como ambiente de integração e troca cultural entre gaúchos e não gaúchos.
Essa adaptação ajuda a explicar como churrasco, chimarrão, danças tradicionais e indumentárias típicas passaram a dividir espaço com outras referências culturais de uma sociedade formada por sucessivas ondas migratórias.
Para o patrão do CTG Nova Querência, Milton Piovesan, manter esses costumes em Roraima é também uma maneira de preservar vínculos afetivos com o lugar de origem.
“Embora o Rio Grande do Sul esteja geograficamente distante, permanece muito perto dos nossos corações. Ser gaúcho é um estado de espírito: é honrar as tradições, usar o lenço e manter viva a nossa história”, afirmou durante o encerramento.
A presença gaúcha em Roraima, porém, é anterior à própria criação do CTG. Pesquisa histórica sobre o tema registra processos de migração e integração de famílias sulistas à sociedade local, enquanto o Nova Querência acabou se consolidando como uma das principais referências dessa identidade cultural em Boa Vista.
Dez dias de celebração
A 38ª Semana Farroupilha começou em 11 de setembro e reuniu atividades culturais, apresentações de dança, música e gastronomia. A abertura teve Missa Crioula e diplomação de prendas e peões.
O encerramento coincidiu com o 20 de Setembro, data associada ao início da Revolução Farroupilha, em 1835. O conflito entre forças farroupilhas e o Império se prolongou por quase dez anos, até 1845, e tornou-se elemento central da construção da identidade tradicionalista gaúcha.
Em Boa Vista, quase dois séculos depois do início daquela revolta e a milhares de quilômetros do cenário onde ela ocorreu, a data ganhou outro significado: tornou-se também um ritual de memória de famílias que deixaram o Sul, construíram uma nova vida na Amazônia e fizeram de Roraima sua nova querência.
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