NOTA DO RORAIMA NA REDE
É compreensível que a Comissão da Mulher Advogada da OAB-RR manifeste solidariedade a uma de suas integrantes. O que causa estranheza e merece reparo é transformar uma reportagem baseada em documentos públicos e questionamentos de interesse público em suposto ataque a uma mulher pelo fato de ela exercer a advocacia.
A nota divulgada afirma que a advogada Hanna Gonçalves estaria sendo alvo de “ataques e tentativas de descredibilização” e associa o episódio à violência contra a mulher e à criminalização da advocacia feminina. Essa interpretação não corresponde ao conteúdo publicado pelo Roraima na Rede.
Sou jornalista há 30 anos. Aprendi com minha mãe, desde muito cedo, a respeitar as mulheres e levei esse ensinamento para minha vida pessoal e profissional. Ao longo dessas três décadas, tenho procurado exercer o jornalismo com responsabilidade, zelo e cuidado para que o legítimo dever de informar não se transforme em instrumento de agressão ou de desrespeito às pessoas.
A reportagem em questão não contém uma única referência depreciativa à condição de mulher de Hanna Gonçalves. Não questiona sua capacidade profissional, não criminaliza o exercício da advocacia e tampouco faz qualquer juízo relacionado ao gênero da advogada.
Os fatos apurados são objetivos: Hanna Gonçalves ocupa cargo comissionado na Prefeitura de Boa Vista, com jornada registrada de 40 horas semanais e proventos de R$ 13.226,20; exerceu funções de confiança na administração municipal; e atua como advogada de Arthur Henrique em processos eleitorais relacionados à candidatura dele ao Governo de Roraima. A apuração também encontrou registros de sua atuação jurídica para Arthur em eleições anteriores.
A reportagem mostrou ainda atos administrativos assinados por Arthur Henrique quando prefeito, envolvendo Hanna em funções de confiança na estrutura municipal. É essa relação entre cargo público comissionado, jornada funcional e atuação profissional para um agente político que está sendo jornalisticamente examinada. O gênero da profissional é absolutamente irrelevante para a apuração.
Mais do que isso: antes da publicação, Hanna Gonçalves, a Prefeitura de Boa Vista e a assessoria de Arthur Henrique foram procuradas para apresentar suas versões e esclarecer os questionamentos levantados. A própria reportagem registrou expressamente que os fatos apurados, isoladamente, não autorizavam concluir pela existência de ilegalidade.
Divergir da reportagem é legítimo. Contestá-la com argumentos e documentos também é. Classificar como misoginia uma apuração jornalística sem apontar qual palavra, frase ou abordagem teria caráter misógino é algo diferente — e exige responsabilidade.
O Roraima na Rede reafirma seu respeito às mulheres, à advocacia e às instituições. Da mesma forma, reafirma que não abrirá mão do direito e do dever de investigar fatos de interesse público, independentemente do gênero, profissão, posição social ou relações de poder das pessoas envolvidas.
Luiz Valério
Jornalista e editor do Roraima na Rede


