Roraima na Rede
Anuncie aqui
--:--
BLOG DO LUIZ VALÉRIO

A campanha dos palanques estreitos e das identidades alugadas em Roraima

A menos de um mês das eleições, disputa pelos cargos de poder em Roraima é marcada por guerra de narrativas, judicialização, investigação da Polícia Federal e luta pelo espólio político do bolsonarismo

Faltando apenas três semanas para o primeiro turno das eleições de 4 de outubro, a campanha em Roraima entrou definitivamente na fase em que os discursos ficam mais agressivos, os palanques parecem menores e os aliados começam a disputar espaço entre si.

A semana que passou ofereceu uma síntese quase perfeita do ambiente eleitoral roraimense: operação da Polícia Federal, decisões judiciais sobre propaganda, pesquisas com números diferentes, candidatos impedidos de subir em trio elétrico e uma acirrada disputa para decidir quem pode ostentar com maior legitimidade o selo da direita.

Pouco se discutiu sobre o futuro de Roraima. Muito se falou sobre quem aparece na fotografia, quem ocupa o palanque e quem consegue transformar uma liderança nacional em patrimônio eleitoral particular.

O episódio mais grave da semana foi a deflagração, na quarta-feira, 9, da Operação Nomenclator. A Polícia Federal cumpriu um mandado de busca e apreensão autorizado pela Justiça Eleitoral para investigar a possível utilização de cargos e funções públicas com o objetivo de constranger ou influenciar pessoas a participar de atividades político-eleitorais.

A investigação também apura eventual oferta de vantagens em troca de apoio a uma candidatura. Durante a ação, foram apreendidos celulares, dinheiro, listas de eleitores e requisições de combustível. A imprensa local informou que o alvo seria um servidor da Assembleia Legislativa ligado ao gabinete da deputada estadual Joilma Teodora

A defesa da parlamentar afirmou que os fatos divulgados não correspondem à verdade e estão sendo apurados. A Polícia Federal, por causa das restrições do período eleitoral, não revelou oficialmente a identidade do investigado. 

É indispensável fazer uma distinção: investigação não significa condenação. Até o momento, existem suspeitas sob apuração, não uma sentença.

Ainda assim, o simples fato de a Polícia Federal investigar a possível utilização de cargos públicos para pressionar eleitores deveria produzir um alerta. Cargo público não é instrumento de campanha. Servidor não é cabo eleitoral compulsório. Combustível pago pelo contribuinte não pode abastecer projeto pessoal de poder.

Quando a máquina pública começa a ser confundida com comitê eleitoral, a democracia deixa de ser escolha e passa a correr o risco de se transformar em constrangimento.

Uma campanha decidida também nos tribunais

A Justiça Eleitoral continuou ocupando posição central na disputa pelo Governo de Roraima.

Na terça-feira, 8, o juiz Victor Oliveira de Queiroz revogou uma liminar que havia proibido Arthur Henrique de realizar campanha dentro de estabelecimentos comerciais. Segundo o magistrado, a legislação eleitoral não impede a presença do candidato em lojas nem o contato pessoal com trabalhadores, clientes e eleitores. Também foi rejeitado o pedido para encaminhar o caso ao Ministério Público do Trabalho como possível assédio eleitoral. 

Três dias depois, entretanto, outra decisão atingiu a campanha de Arthur. O juiz Renato Pereira Albuquerque determinou a suspensão de uma propaganda gravada dentro de uma Unidade Básica de Saúde. A decisão liminar considerou que a utilização de uma repartição pública em funcionamento, incluindo imagens de servidores e usuários, poderia configurar uso indevido de bem público e produzir desequilíbrio eleitoral. A defesa anunciou que recorreria. 

Os dois casos estabelecem uma fronteira importante. Conversar com o eleitor em um estabelecimento privado é uma coisa. Transformar a rotina de uma unidade pública de saúde em cenário para propaganda eleitoral é outra.

Mas também revelam algo maior: a campanha está sendo travada simultaneamente nas ruas, nas redes sociais e nos processos judiciais. A urna continua sendo o destino final, mas o caminho até ela passa diariamente pelos gabinetes dos magistrados.

O trio elétrico que expôs as rachaduras do PL

A visita de Flávio Bolsonaro a Boa Vista, na quinta-feira, 10, deveria representar uma demonstração de unidade do PL. Terminou revelando que, na política, até o acesso ao trio elétrico possui hierarquia.

O candidato a deputado federal Daniel Trindade e a presidente do PL Mulher em Roraima, Kátia Araújo, publicaram vídeos afirmando que foram impedidos de subir no veículo onde estava Flávio. Ambos disseram que haviam recebido autorização para participar, mas acabaram barrados por integrantes da organização.

Daniel afirmou ter sido “humilhado e maltratado”. Kátia classificou o episódio como falta de respeito. Não houve confirmação independente sobre quem determinou a restrição nem quais critérios foram utilizados para selecionar os ocupantes do palanque. 

O caso seria apenas uma confusão de bastidor se não traduzisse com tanta precisão o espírito desta campanha. Todos querem subir. Todos querem aparecer. Todos desejam uma fotografia que possa ser convertida em voto.

O palanque, porém, é sempre menor que a quantidade de aliados.

A guerra pela “verdadeira direita”

A visita de Flávio também aprofundou a disputa entre Arthur Henrique e Soldado Sampaio pelo eleitor conservador.

Arthur, filiado ao PL desde outubro de 2025, recebeu formalmente o apoio do candidato presidencial. Hiran Gonçalves afirmou que a passagem de Flávio fortaleceu Arthur e disse que políticos de diferentes grupos tentaram capitalizar eleitoralmente a presença do presidenciável. 

No mesmo dia, Sampaio publicou uma fotografia ao lado de Jair Bolsonaro feita em 2010, durante a mobilização nacional pela anistia de policiais e bombeiros militares. A campanha do governador também vem divulgando manifestações de apoio de lideranças conservadoras como Damares Alves, Tarcísio de Freitas e Marcos Pereira. 

Assim, Roraima assiste a uma disputa curiosa: dois candidatos tentando provar quem é mais genuinamente de direita.

Um apresenta o apoio oficial do candidato presidencial do PL. O outro exibe uma relação política anterior à atual corrida eleitoral. A campanha, que deveria discutir saúde, educação, infraestrutura, segurança e desenvolvimento, começa a parecer uma disputa por certificado de autenticidade ideológica.

Ideologia, no entanto, não deveria funcionar como camisa de time adquirida às vésperas do campeonato. Trajetória política não se comprova apenas com fotografias antigas, muito menos com abraços recentes. Ela se mede pelas escolhas, alianças e decisões adotadas ao longo do tempo.

Pesquisas contam histórias diferentes

Até as pesquisas contribuíram para o clima de incerteza.

O Instituto Census, em levantamento realizado entre 31 de agosto e 6 de setembro, apontou Arthur Henrique com 53,45% e Soldado Sampaio com 31,37%. Em comparação com a pesquisa anterior do próprio instituto, Arthur oscilou de 54,99% para 53,45%, enquanto Sampaio passou de 28,42% para 31,37%. 

Dois dias depois, o Real Time Big Data apresentou uma diferença maior: Arthur com 62% e Sampaio com 28%. Foram entrevistados 1.600 eleitores entre 5 e 9 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais. O levantamento está registrado sob o número RR-03170/2026. 

As pesquisas foram realizadas por institutos diferentes, com amostras e metodologias próprias. Por isso, não podem ser tratadas como uma sequência matemática direta. O dado comum é que Arthur permanece na liderança. O tamanho dessa vantagem, entretanto, varia consideravelmente.

Pesquisa é fotografia, não escritura de propriedade da urna. Serve para compreender tendências, não para substituir o voto.

Muito dinheiro para poucos candidatos

A desigualdade financeira também apareceu de forma explícita. Segundo dados do DivulgaCand, os quatro candidatos ao Governo haviam recebido juntos aproximadamente R$ 3,16 milhões.

Arthur Henrique concentrou R$ 2,5 milhões, repassados pela direção nacional do PL. Soldado Sampaio recebeu R$ 485,6 mil; Rosi Aires, R$ 180 mil; e Farah Mesquita ainda não apresentava receitas registradas naquela atualização. 

O dinheiro não garante vitória, mas compra visibilidade, estrutura, deslocamento, produção audiovisual e presença digital. Em uma eleição cada vez mais dependente da capacidade de ocupar telas, a desigualdade financeira produz também desigualdade narrativa.

A reta final

A semana mostrou uma campanha nervosa, judicializada e excessivamente concentrada em símbolos nacionais. Em vez de propostas confrontadas com números e prazos, predominam disputas por identidade, espaço e padrinhos políticos.

É compreensível que candidatos procurem apoios nacionais. O problema começa quando a sombra do padrinho se torna maior que o projeto apresentado ao eleitor.

Roraima não precisa apenas escolher quem conhece Bolsonaro há mais tempo, quem recebeu o abraço mais recente de Flávio ou quem conseguiu ocupar o ponto mais visível do trio elétrico. Precisa decidir quem possui condições políticas, administrativas e morais para governar o Estado.

No dia 4 de outubro, não haverá espaço reservado na urna para padrinhos. O voto será dado aos candidatos locais. E serão eles — não as fotografias, os vídeos ou os visitantes ilustres, que terão de responder pelas consequências.

#eleições2026 #políticaemRoraima #ArthurHenrique #SoldadoSampaio #FlávioBolsonaro #JustiçaEleitoral #OperaçãoNomenclator.