Roraima na Rede
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BLOG DO LUIZ VALÉRIO

Na reta final, a eleição em Roraima entra na zona de máxima pressão

Ausência em debate, avanço da judicialização da propaganda e operações policiais mudam o ambiente político a poucos dias da votação

Faltam poucos dias para os eleitores irem às urnas e a campanha eleitoral em Roraima entrou naquela fase em que cada gesto pesa mais do que pesava semanas atrás. Uma ausência ganha dimensão política. Um vídeo patrocinado vira processo. Uma operação policial atravessa o discurso eleitoral. E um debate deixa de ser apenas um programa de televisão para se transformar em oportunidade, ou risco, para quem disputa o voto.

É nesse ambiente que Roraima chega à última semana antes do primeiro turno, marcado para domingo, 4 de outubro. A Justiça Eleitoral informa que a votação no estado ocorrerá das 7h às 16h, horário local. Também foi informado pelo TRE Roraima que 50 locais de votação precisaram ser realocados.

Nas últimas horas, três movimentos ajudam a compreender o estado atual da disputa: a ausência de Arthur Henrique (PL) no debate realizado pela TV Norte na segunda-feira; a crescente intervenção da Justiça Eleitoral sobre conteúdos publicados e impulsionados nas redes sociais; e a sombra das recentes operações da Polícia Federal envolvendo suspeitas de crimes eleitorais.

Arthur Henrique havia confirmado participação no debate promovido pela TV Norte na segunda-feira (28), mas não compareceu. Sua justificativa foi conflito de agenda. Participaram Soldado Sampaio (Republicanos), Rosi Aires (PSOL) e Farah Mesquita (Solidariedade).

A ausência rapidamente se tornou parte do próprio debate.

Sampaio e Farah utilizaram diferentes momentos do programa para criticar Arthur, enquanto os participantes também discutiram saúde, segurança pública, educação e infraestrutura. As críticas ao ex-prefeito passaram por temas de sua administração municipal e por sua decisão de não estar presente naquele confronto.

Politicamente, o episódio ocorre num momento diferente daquele observado no início da campanha.

A pesquisa Quaest divulgada em 25 de setembro ainda registra vantagem expressiva de Arthur Henrique: 57% das intenções de voto, contra 32% de Soldado Sampaio. Rosi Aires aparece com 2%, enquanto Farah Mesquita e Clébio Genuíno não pontuaram naquele levantamento. Foram entrevistados 804 eleitores entre 21 e 24 de setembro, com margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada sob o número RR-03658/2026.

Mas a fotografia precisa ser observada junto com o movimento.

Na rodada anterior da Quaest, divulgada em agosto, Arthur tinha 60% e Sampaio, 27%. Agora são 57% contra 32%. A diferença entre os dois, portanto, passou de 33 para 25 pontos percentuais. Isso não elimina a vantagem registrada pelo candidato do PL, mas mostra que houve mudança mensurável entre as duas pesquisas.

É justamente nesse contexto que uma ausência em debate ganha importância política maior do que teria semanas atrás.

Não é possível afirmar, a partir desse episódio isolado, qual impacto ele terá sobre o eleitorado. Mas é possível dizer que Arthur entregou aos adversários um assunto para explorar justamente na reta final da campanha.

E eles exploraram.

A próxima arena será diante das câmeras

A tensão aumenta porque haverá outro confronto nesta terça-feira (29). A Rede Amazônica programou para esta noite seu debate com os candidatos ao Governo de Roraima. Arthur Henrique, Soldado Sampaio, Farah Mesquita e Rosi Aires estão entre os participantes anunciados.

Depois do episódio da TV Norte, a presença de Arthur adquire um significado adicional.

O interesse deixa de estar apenas nas propostas que serão apresentadas. Passa também pela dinâmica do confronto: quais assuntos os adversários levarão para o centro do debate, como Arthur responderá às críticas acumuladas nos últimos dias e até que ponto Sampaio tentará aproveitar o crescimento registrado pela Quaest para aumentar a pressão sobre o líder das pesquisas.

Não cabe antecipar o resultado dessa disputa. Mas o debate desta terça-feira pode se transformar em um dos últimos grandes acontecimentos capazes de reorganizar a conversa pública antes da votação.

Enquanto a disputa pelo Governo esquenta, outro front da campanha ficou mais evidente nesta terça-feira: as redes sociais. O TRE-RR determinou a suspensão do impulsionamento pago de um vídeo publicado pelo candidato a deputado federal Major Emmanuel (PL) contra Teresa Surita (MDB), candidata ao Senado. A decisão liminar foi proferida pelo juiz Victor Oliveira de Queiroz.

Segundo a decisão relatada pelo portal O Fato, a peça associava Teresa, por meio de referências à família de seu marido, ao regime cubano e ao Foro de São Paulo. Um detalhe é fundamental: a Justiça não determinou, nesse momento, a retirada do vídeo da internet.

A liminar concentrou-se no impulsionamento pago. O entendimento preliminar foi de que o conteúdo possuía natureza predominantemente negativa contra uma adversária, modalidade para a qual a legislação eleitoral não permite a utilização do impulsionamento como mecanismo de amplificação. A análise do mérito e de outras alegações apresentadas no processo ainda depende da tramitação da representação.

O caso é revelador porque mostra onde está uma das batalhas mais delicadas desta reta final.

Não basta mais produzir uma mensagem política. A disputa envolve quem consegue fazê-la circular, quanto dinheiro é empregado para ampliar seu alcance e onde termina a propaganda permitida e começa uma prática vedada pela legislação.

E o relógio está correndo: segundo o calendário eleitoral do TSE, 1º de outubro é o último dia para propaganda eleitoral paga ou impulsionada na internet no primeiro turno.

A Polícia Federal também entrou no ambiente da campanha

Existe ainda um componente que não nasceu nas últimas 24 horas, mas continua produzindo efeitos políticos nesta reta final: as operações da Polícia Federal. No sábado (26), a PF deflagrou a Operação Auctoritas em Roraima e cumpriu três mandados de busca e apreensão em Boa Vista e Rorainópolis. Oficialmente, a investigação apura possível associação criminosa e crimes eleitorais.

De acordo com a própria Polícia Federal, os investigadores apuram a possível existência de uma estrutura organizada destinada à mobilização e arregimentação de eleitores, inclusive mediante uso de vínculos e funções públicas para constranger ou influenciar servidores e colaboradores, além da possível oferta ou promessa de vantagens associadas ao apoio a candidaturas. São suspeitas sob investigação, não conclusões definitivas sobre responsabilidade individual.

A operação veio depois de outros episódios que colocaram suspeitas de ilícitos eleitorais no noticiário roraimense nos últimos dias.

Na quinta-feira (24), o candidato a deputado estadual Jalser Renier foi preso durante uma operação da PF que originalmente investigava suspeitas de lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos. Segundo as informações divulgadas sobre a ocorrência, foram encontrados R$ 19 mil em espécie e documentos relacionados à campanha, circunstâncias que levantaram suspeitas de possível crime eleitoral.

No dia seguinte, o candidato a deputado federal Daniel Trindade (PL) também foi preso em outra investigação. Durante as buscas, documentos apreendidos levantaram indícios de possíveis crimes eleitorais relacionados à compra de votos. Novamente, indício não significa comprovação: o material apreendido integra investigação e depende da apuração das autoridades.

O efeito político dessa sequência é evidente, mesmo antes de qualquer conclusão judicial: ela coloca o tema da integridade do processo eleitoral no centro do noticiário exatamente quando milhares de eleitores estão tomando suas decisões finais.

Quando a campanha deixa de falar apenas de propostas

Talvez seja esse o aspecto mais significativo destes últimos dias. A campanha começou discutindo saúde, educação, estradas, segurança, mineração, desenvolvimento econômico e administração pública. Esses temas continuam presentes. Mas a reta final adicionou outras palavras ao vocabulário eleitoral de Roraima: Polícia Federal, compra de votos, propaganda irregular, impulsionamento, liminar, investigação e debate.

A eleição entrou na zona de máxima pressão. Para Arthur Henrique, o desafio é administrar uma liderança ainda ampla nas pesquisas ao mesmo tempo em que passa a receber ataques mais concentrados dos adversários.

Para Soldado Sampaio, o desafio é transformar o crescimento registrado nas pesquisas em votos suficientes para alterar a configuração da disputa. Para Rosi Aires e Farah Mesquita, o pouco tempo restante aumenta a necessidade de utilizar debates e exposição pública para colocar suas candidaturas no centro da conversa.

E, na corrida ao Senado, a judicialização da comunicação digital mostra que a disputa não ocorre apenas entre candidatos, mas também sobre os próprios métodos utilizados para conquistar a atenção do eleitor.

O eleitor entra em cena

Existe uma tentação recorrente em campanhas eleitorais: imaginar que pesquisa é resultado, que multidão é voto, que engajamento em rede social é maioria e que barulho significa necessariamente convencimento. Não significa.

Pesquisa mede um determinado momento, dentro de uma metodologia e de uma margem de erro. Debate produz acontecimentos políticos, mas seu efeito depende de quem assiste e de como o conteúdo repercute posteriormente. Redes sociais amplificam mensagens, mas não representam sozinhas o conjunto do eleitorado.

A única contagem que encerra essa discussão começa quando as urnas são abertas. Até lá, cada campanha tentará construir sua última narrativa. Arthur tentará preservar a vantagem que as pesquisas ainda registram. Sampaio tentará demonstrar que a distância pode continuar diminuindo.

Os demais candidatos tentarão ampliar espaço numa disputa fortemente polarizada entre os dois primeiros colocados nas pesquisas. E todos terão cada vez menos tempo.

Talvez seja justamente isso que explique a temperatura destes últimos dias. Quando o calendário começa a fechar as portas da campanha, desaparece também o luxo de esperar pela próxima semana.

Porque, desta vez, não haverá próxima semana de campanha.

Haverá urna.

E será nela, e não nos palanques, nas redes sociais, nas pesquisas ou nos debates que os eleitores de Roraima registrarão suas escolhas.

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