O número de empresas com atividade principal relacionada ao turismo em Roraima cresceu mais de 81% entre 2019 e 2024, segundo levantamento do Sebrae. O total passou de 3.279 para 5.944 empreendimentos no período, indicando a expansão de uma cadeia que reúne desde hotéis e restaurantes até transportadoras, agências, guias, artesãos e pequenos negócios.
Os dados ganham destaque com a proximidade do Dia Mundial do Turismo, celebrado em 27 de setembro, e ajudam a dimensionar economicamente uma atividade associada principalmente às paisagens naturais e à diversidade cultural de Roraima.
O levantamento aponta ainda 9.203 postos de trabalho vinculados às atividades turísticas no estado. Desse total, 60,9% estão concentrados em micro e pequenas empresas.
A característica do setor faz com que o dinheiro gasto pelo visitante circule por diferentes atividades. Uma mesma viagem pode envolver hospedagem, alimentação, transporte, contratação de guias ou agências, compra de artesanato e experiências oferecidas por comunidades ou propriedades rurais.
“O dinheiro deixado pelo turista circula em hotéis, restaurantes, transportes, agências, guias, comércio, artesanato, propriedades rurais e comunidades, entre diversos outros segmentos”, explica a analista do Sebrae Roraima Kamyla Brasil.
Roraima reúne atrativos como serras, rios, lavrado, pesca esportiva, gastronomia regional e manifestações culturais, além da presença de comunidades indígenas e tradicionais. Um dos desafios do setor é transformar esses elementos em produtos turísticos estruturados, capazes de atrair visitantes e gerar renda nos municípios.
Experiências começam a ganhar espaço
Uma das vertentes em desenvolvimento é o turismo de base comunitária, no qual moradores participam diretamente da organização das atividades e da apresentação de seus territórios aos visitantes.
Na comunidade indígena Kauwê, em Pacaraima, um projeto de turismo pedagógico desenvolvido pela Escola Estadual Indígena Ana Belardo envolve cerca de 90 estudantes. A iniciativa trabalha cultura indígena, sustentabilidade, agricultura, artesanato e empreendedorismo.
A perspectiva é que parte das experiências desenvolvidas possa futuramente integrar um roteiro turístico da comunidade, com participação dos próprios moradores na apresentação de conhecimentos, tradições e produtos locais.
Outras iniciativas procuram associar atividades econômicas já existentes à experiência turística. Em Alto Alegre, a Rota do Tambaqui reúne piscicultura, gastronomia, cultura indígena, natureza e pequenos empreendimentos. Em Caroebe, a experiência Caroebe de Todos os Sentidos busca explorar características do município a partir de vivências ligadas ao território.
“O turista não quer apenas visitar um lugar ou tirar uma fotografia; ele quer viver uma história, conhecer as pessoas, experimentar os sabores, compreender a cultura e estabelecer uma conexão com o destino”, afirma Kamyla Brasil.
Boa Vista exerce papel importante nessa cadeia por concentrar boa parte da infraestrutura utilizada por quem chega ao estado. Dados do Ministério do Turismo levantados em novembro de 2025 identificaram 24 agências de turismo com cadastro ativo em Roraima, das quais 21 estavam sediadas na capital.
Naquele levantamento, o estado também possuía 52 guias de turismo com registro ativo, sendo 43 domiciliados em Boa Vista.
A concentração dos serviços na capital significa que mesmo uma viagem destinada a um atrativo no interior pode movimentar negócios em Boa Vista, por meio de hospedagem, alimentação, transporte, agenciamento e comércio antes ou depois do deslocamento.
Transformar os atrativos naturais e culturais em produtos preparados para receber visitantes continua sendo um dos principais desafios para ampliar o peso econômico do turismo no estado. Isso envolve infraestrutura, qualificação profissional, divulgação, acesso a crédito e organização dos empreendedores.
Em 2026, uma parceria entre Sebrae e Desenvolve Roraima destinou R$ 500 mil em crédito a dez empreendedores do setor em cinco municípios. Os recursos alcançaram atividades de hotelaria, gastronomia, agências e turismo de base comunitária.
Para Kamyla Brasil, a consolidação do setor depende justamente da capacidade de transformar os atrativos existentes em experiências comercializáveis.
“Roraima já tem os atrativos. O nosso próximo salto é transformar potencial em produto turístico, produto em experiência e experiência em geração de negócios”, afirma.
Os números mostram que o turismo vai além da visita aos cartões-postais. A movimentação de visitantes pode gerar efeitos sobre uma cadeia formada por milhares de empresas e trabalhadores, fazendo com que paisagens, gastronomia, cultura e experiências locais também funcionem como ativos econômicos para Roraima.
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