Arthur Henrique foi pressionado durante entrevista à TV Roraima a explicar propostas para saúde, educação e regularização fundiária, além da aliança política com Antonio Denarium. Imagem: Reprodução/TV Roraima
A entrevista do candidato ao Governo de Roraima Arthur Henrique (PL) à TV Roraima, afiliada da Rede Amazônica, foi marcada por sucessivas cobranças do apresentador Lucas Lucke por metas, prazos e medidas concretas. Em diferentes momentos, o ex-prefeito de Boa Vista respondeu com propostas genéricas, recorreu ao argumento da presença física do governador e tentou transferir para o Estado uma imagem de eficiência da gestão municipal que também enfrenta problemas semelhantes aos questionados durante a sabatina.
A contradição mais evidente apareceu no campo político. Arthur, que pede votos com um discurso de renovação e combate à chamada “velha política”, foi questionado sobre a aliança pública com o ex-governador Antonio Denarium, cassado pela Justiça Eleitoral por abuso de poder político e econômico.
Ao responder, Arthur tentou dissociar o aliado de seu passado recente no governo.
“O Denarium, hoje, já não é político”, afirmou o candidato, acrescentando que o ex-governador seria agora um empresário interessado no desenvolvimento de Roraima.
A resposta não enfrentou o centro da pergunta. O fato de Denarium não ocupar atualmente um mandato não apaga sua trajetória política, a cassação nem a influência que mantém no processo eleitoral. Arthur também afirmou que aceita o apoio de todos os que desejam “construir um estado melhor” e garantiu que será ele quem governará.
O apresentador aprofundou o questionamento ao lembrar que o próprio Arthur havia citado, minutos antes, a situação precária de uma escola indígena no Uiramutã. O candidato descreveu uma estrutura improvisada pela própria comunidade, sem condições adequadas para receber os estudantes.
Lucas Lucke então observou que Denarium permaneceu durante anos no comando do Estado sem resolver o problema apresentado pelo próprio candidato como exemplo do abandono da educação.
Arthur reconheceu que era “triste” chamar aquele espaço de escola, mas evitou atribuir responsabilidade ao aliado. Em vez disso, declarou que a precariedade seria resultado de problemas acumulados durante décadas e passou a defender a gestão de Denarium, afirmando que o ex-governador recebeu um Estado desorganizado e recuperou as contas públicas.
A resposta revelou o limite do discurso de renovação: Arthur critica a realidade encontrada nas comunidades, mas relativiza a responsabilidade administrativa de quem governou o Estado durante os últimos anos e agora participa de sua campanha.
Gabinete no HGR, mas sem metas para cirurgias
Na saúde, Arthur voltou a defender a transferência do gabinete do governador para o Hospital Geral de Roraima (HGR). Segundo ele, a presença diária permitiria conhecer os problemas e tomar decisões ao lado dos profissionais.
O apresentador observou, porém, que a proposta não estabelecia metas nem explicava como a instalação do gabinete resolveria problemas como a espera por atendimento e a fila de cirurgias.
Pressionado a dizer se sua presença dentro do HGR reduziria efetivamente essa fila, Arthur respondeu que sim. Comparou a situação a alguém que precisa estar no local para perceber que “o chão está sujo” e afirmou que o governador deve acompanhar pessoalmente a falta de equipamentos, materiais e condições de trabalho.
Arthur mencionou a implantação do prontuário eletrônico, a divulgação pública das filas e a ampliação das cirurgias. Não informou, entretanto, quantos procedimentos pretende realizar, em quanto tempo reduziria a espera, quais recursos seriam utilizados ou qual seria a meta para os primeiros meses de governo.
A insistência na presença física transformou uma proposta administrativa em gesto simbólico. Estar no hospital pode ajudar a conhecer a realidade, mas não substitui planejamento, orçamento, contratação de equipes, aquisição de insumos e definição de metas.
A promessa também abriu espaço para uma comparação inevitável com a gestão municipal. Durante cinco anos e meio como prefeito, Arthur administrou o Hospital da Criança Santo Antônio e a rede básica de Boa Vista, mas não informou se adotou nesses locais a mesma rotina de presença permanente que agora apresenta como solução para o HGR.
Além disso, deixou a Prefeitura sem entregar a primeira Unidade de Pronto Atendimento da capital. A UPA do Cambará havia sido prometida durante a campanha de reeleição, com previsão de licitação ainda em 2024 e início das obras em 2025. Em junho de 2026, a estrutura continuava sem sair do papel, apesar da destinação de R$ 6,7 milhões para o projeto. A pendência já havia sido reconhecida pelo próprio candidato durante outro debate. A promessa original foi divulgada pela Prefeitura de Boa Vista.
Especialistas continuam sem solução imediata
Outro momento de dificuldade ocorreu quando o apresentador citou a escassez de médicos especialistas em Roraima. O plano de governo de Arthur, conforme destacou a entrevista, não apresenta uma política clara para a contratação desses profissionais.
O candidato reconheceu que o problema também foi enfrentado por sua administração em Boa Vista e citou especificamente a dificuldade para conseguir consultas neurológicas.
Como resposta, prometeu realizar concursos públicos e contratar médicos de outros estados para participar de mutirões. Admitiu, no entanto, que a deficiência não será resolvida no curto prazo e classificou a questão como um projeto de médio prazo.
Questionado sobre contratações permanentes, Arthur voltou a mencionar os concursos, mas ponderou que especialistas de outros centros podem não ter interesse em morar em Boa Vista. Nesse caso, afirmou que o Estado continuaria dependente de contratações temporárias e mutirões.
A resposta confirmou o diagnóstico apresentado pelo entrevistador, mas não ofereceu uma solução imediata para impedir que pacientes continuem aguardando meses por consultas e procedimentos.
Educação ficou restrita ao acesso e à infraestrutura
Na educação, Arthur foi confrontado com dados segundo os quais 95,7% dos estudantes do terceiro ano do ensino médio não alcançam o nível adequado em matemática e 79,1% apresentam desempenho insuficiente em língua portuguesa.
Em vez de detalhar uma política de recuperação da aprendizagem, o candidato concentrou sua resposta nas dificuldades de acesso às escolas do interior. Citou transporte escolar, pontes danificadas, construção de unidades, distribuição de uniformes e materiais didáticos, formação continuada de professores e implantação do ensino técnico.
São medidas relevantes, especialmente para comunidades isoladas. No entanto, Arthur não apresentou metas de aprendizagem, programas de reforço, avaliações periódicas, estratégias para corrigir defasagens ou prazos para melhorar os indicadores apresentados pelo jornalista.
Quando questionado novamente sobre como reverteria os baixos resultados durante um eventual mandato, respondeu que a solução começaria pela garantia de acesso à escola. O problema é real, mas a resposta permaneceu incompleta: colocar o estudante dentro da sala de aula é indispensável, porém não explica como assegurar que ele aprenda português e matemática.
Promessa de rigor, mas sem investigar o passado
Outra inconsistência surgiu no debate sobre a regularização fundiária. Arthur prometeu não compactuar com ilegalidades e afirmou que utilizará georreferenciamento e imagens de satélite para identificar ocupações legítimas.
Ao ser perguntado se investigaria irregularidades anteriores, incluindo suspeitas de favorecimento dentro do Iteraima, declarou que não estava procurando culpados e que essa responsabilidade caberia à Justiça.
A posição criou uma contradição adicional: o candidato promete rigor contra ilegalidades, mas evita assumir o compromisso de promover apuração administrativa sobre possíveis desvios ocorridos dentro da própria estrutura que pretende comandar.
Ao final dos 30 minutos, Arthur conseguiu apresentar diretrizes gerais, especialmente para infraestrutura, agricultura e transporte escolar. Nos temas mais sensíveis, entretanto, a entrevista revelou propostas sem metas mensuráveis, soluções condicionadas ao futuro e uma dificuldade persistente de conciliar o discurso de mudança com a defesa do grupo político que governou Roraima nos últimos anos.
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